KALIPANA celebra junto com os Povos Baniwa e Koripako Quatro Prêmios de Reconhecimento Nacional em 2025

Fortalecimento cultural e educacional dos povos Baniwa e Koripako no Alto rio Negro – AM

O ano de 2025 ficará gravado na memória dos povos Baniwa e Koripako como um período de conquistas históricas e reconhecimento nacional. Em diferentes áreas — das iniciativas populares à educação integral e literatura científica— demonstrando força, resiliência e um profundo compromisso com a preservação de seus saberes e territórios. Essas vitórias se expressaram na conquista de prestigiados prêmios nacionais, o projeto comunitário como a Casa-Território Kalipana foi valorizado por promover resistência cultural e justiça socioambiental. Além disso, a homenagem ao educador-pesquisador-liderança Dzoodzo Baniwa evidenciou o papel fundamental de personalidades indígenas na defesa dos direitos e tradições dos povos originários. O destaque da Escola Baniwa Eeno Hiepole como modelo inovador de educação integral indígena no país e do Prêmio Jabuti Acadêmico, que reconheceu a importância do olhar indígena na ciência. Cada premiação representou uma realização e o resultado de um esforço coletivo baseado em saberes ancestrais. O reconhecimento nacional fortaleceu o protagonismo das comunidades, reafirmando a importância de políticas inclusivas e do respeito à diversidade cultural. Dessa forma, 2025 tornou-se um marco histórico, de esperança e inspiração para as futuras gerações Baniwa e Koripako.

Cultura e Território: Prêmio Periferia Viva para a Casa-Território Kalipana
Casa-Território Kalipana conquista 3ª posição na classificação nacional

A conquista do prêmio Periferia Viva 2025 pela Casa-Território Kalipana — projeto de iniciativa comunitária da aldeia Santa Isabel do rio Ayari – concedido pelo Ministério das Cidades por meio da Secretaria Nacional de Periferias representa um marco significativo para as iniciativas indígenas no Brasil. Reconhecida nacionalmente, a Casa-Território Kalipana se destaca como referência de protagonismo comunitário, promovendo articulação sólida entre diferentes gerações e reunindo mulheres, jovens e anciãos em prol do fortalecimento dos saberes tradicionais, segurança alimentar e direitos dos povos originários. Este espaço funciona como projeto de resistência cultural, incentivando a transmissão de saberes, culinária e gastronomia Baniwa, e realiza oficinas de preparo de comidas, celebrações tradicionais e ações educativas que valorizam a memória, soberania alimentar, saberes ancestrais e a língua Baniwa.

Entre os projetos desenvolvidos, destacam-se iniciativas voltadas para a segurança alimentar, como o sistema agrícola tradicional Káali, hortas coletivas, sistema agroflorestal, meliponicultura e beneficiamento da mandioca, garantindo autonomia e nutrição saudável para a comunidade local. Essas atividades estão alinhadas com a busca pela justiça socioambiental, defendendo a preservação do território e o acesso digno a políticas públicas. O reconhecimento nacional pelo prêmio legitima a luta da Casa-Território Kalipana e inspira outras comunidades indígenas e periféricas a reivindicarem seus espaços e direitos, mostrando que a gestão comunitária pode transformar realidades.

A Casa-Território Kalipana reafirma seu papel como símbolo de esperança, resistência e inovação social, contribuindo para a construção de um Brasil mais plural e justo.

Vida e Obra: Prêmio Fundação Bunge para Dzoodzo Baniwa
Dzoodzo Baniwa está entre os quatros premiados

Dzoodzo Baniwa, educador-pesquisador-liderança Baniwa da aldeia Santa Isabel do rio Ayari, teve sua trajetória reconhecida nacionalmente ao receber o Prêmio Fundação Bunge na categoria “Vida e Obra”. Sua história é marcada por décadas de dedicação à defesa dos territórios dos povos Baniwa e Koripako. Ao longo dos anos, Dzoodzo se destacou como uma voz ativa em fóruns, assembleias e encontros locais, regionais, nacionais e internacionais, articulando resistência, resiliência e justiça climática, sempre promovendo o respeito às tradições ancestrais e as ciências.

Atuando como mediador entre lideranças indígenas e comunidades científicas, Dzoodzo buscou garantir direitos constitucionais, como educação diferenciada, saúde indígena, justiça climática e respeito à autonomia cultural. Sua sabedoria é compartilhada por meio de ensinamentos orais que valorizam a língua Baniwa e incentivam os jovens a conhecerem e protegerem suas raízes.

Além disso, Dzoodzo foi fundamental na articulação de projetos comunitários voltados à sustentabilidade ambiental, justiça climática e ao fortalecimento da identidade indígena, como a Casa-Território Kalipana. Sua liderança inspira sua própria comunidade e outras aldeias da região, tornando-se referência para movimentos sociais, projetos comunitários e pesquisas interculturais e colaborativas.

O reconhecimento da Fundação Bunge celebra tanto a dedicação individual de Dzoodzo quanto o trabalho coletivo dos povos originários na Amazônia, refletindo sua perseverança e fé na força de sua gente. Ele representa a esperança de um futuro no qual a cultura Baniwa seja respeitada, valorizada e celebrada. Sua trajetória evidencia que a defesa do território, das tradições e no diálogo científico é um caminho de resistência e renovação para toda a Amazônia. Dzoodzo Baniwa é um exemplo de educador-pesquisador-liderança e compromisso com o bem viver indígena.

Educação: Escola Baniwa Eeno Hiepole como Modelo Nacional
Certificado de reconhecimento da Escola Baniwa Eeno Hiepole

No campo educacional, a Escola Municipal Baniwa Eeno Hiepole de Tempo Integral, localizada na aldeia Canadá, rio Ayari conquistou certificado de reconhecimento nacional, através da Secretaria Municipal de Educação, ao ser destacada pelo Ministério da Educação (MEC) como uma “Experiência Inspiradora” no âmbito do Programa Escola em Tempo Integral. Esse reconhecimento valoriza a proposta pedagógica inovadora da aldeia-escola, que integra de maneira efetiva os saberes ancestrais do povo Baniwa ao currículo formal, promovendo uma educação contextualizada e significativa para os estudantes indígenas.

A escola oferece um ensino diferenciado, no qual disciplinas tradicionais, como Língua Portuguesa e Matemática, dialogam com conteúdos próprios da cultura Baniwa, como a língua nativa, histórias orais, práticas de manejo do território e conhecimentos sobre a biodiversidade local. Isso fortalece o orgulho étnico, estimula o protagonismo juvenil e contribui para a formação de cidadãos conscientes de sua identidade e papel social.

Além disso, a experiência da Eeno Hiepole serve de modelo para outras escolas indígenas e não indígenas do país, demonstrando que é possível conciliar educação moderna e tecnologia com a valorização dos saberes tradicionais. O projeto pedagógico estimula a participação comunitária, aproximando lideranças, pais e anciãos do processo educativo, o que potencializa o aprendizado e resgata valores coletivos.

Esse reconhecimento do MEC legitima a luta dos povos Baniwa por uma educação de qualidade, plural e inclusiva, fortalecendo políticas públicas que respeitam a diversidade cultural e promovem a autonomia dos povos indígenas. O exemplo da escola inspira novas iniciativas educativas, sinalizando caminhos para a construção de uma educação integral, sustentável e verdadeiramente brasileira.

Ciência e Literatura: Prêmio Jabuti Acadêmico

A conquista do Prêmio Jabuti Acadêmico 2025 pelo livro “Espécies de Aves do Rio Cubate” representa um marco para a ciência brasileira e para a valorização dos saberes indígena. Esta obra, resultado de uma colaboração entre a comunidade Baniwa de Nazaré do rio Cubate, lideranças indígenas e pesquisadores não indígenas, evidencia a força do trabalho coletivo e o respeito mútuo entre pesquisadores e povos originários. O registro trilíngue das mais de 300 espécies de aves — em português, Nheengatu e Baniwa — é um feito notável, pois democratiza o conhecimento, fortalece as línguas indígenas e reafirma a importância da diversidade cultural na produção científica. Ao valorizar o olhar indígena sobre a biodiversidade, o livro ultrapassa fronteiras acadêmicas e mostra que o entendimento profundo do território, aliado à experiência ancestral, inspirado pela história de naturalista como Alfredo Wallace é fundamental para a ciência moderna e para o avanço da biotecnologia. Essa integração de saberes tradicionais e acadêmicos enriquece o campo da pesquisa e promove inovação, respeito à natureza e reconhecimento aos povos que há miliares de anos cuidam da Amazônia. O prêmio, portanto, é mais do que um reconhecimento editorial: é símbolo de resistência, diálogo intercultural e esperança para a construção de uma ciência verdadeiramente inclusiva e transformadora no Brasil.

Conclusão: Fortalecimento e Esperança para o Futuro

Com estas conquistas, a Casa-Território Kalipana junto com os povos Baniwa e Koripako encerram 2025 mais fortalecidos e reconhecidos nacionalmente. Cada prêmio representa uma vitória e o resultado de um trabalho colaborativo, atravessado por saberes ancestrais, respeito à natureza e o desejo de construir um futuro de bem viver para as próximas gerações. O reconhecimento destas premiações contribui para a valorização da diversidade cultural e das formas de organização dos povos indígenas, servindo de exemplo para outras comunidades e reforçando a importância de políticas públicas inclusivas e respeitosas.

Em tempos de desafios, as vitórias de 2025 renovam as esperanças e mostram ao Brasil que os povos originários da Amazônia têm muito a ensinar e celebrar. Estas conquistas não são apenas troféus; são ferramentas de fortalecimento político e social. Os povos Baniwa e Koripako encerram o ano com a voz mais alta, provando que a Amazônia indígena é capaz de produzir ciência, educação de excelência e soluções reais para o futuro do planeta.

Oficina de elaboração do Plano de Gestão de Negócio da Kalipana

Povo Baniwa e Koripako fortalece o desenvolvimento da sociobiodiversidade no território

O evento está ocorrendo no período de 04-08 de novembro de 2025, na aldeia Santa Isabel, rio Ayari – AM, a oficina para a elaboração do Plano de Gestão de Negócio da Kalipana, reunindo representantes de 17 comunidades Baniwa e Koripako, totalizando cerca de 120 participantes. A oficina é promovida pelo Dep. de Negócios Socioambientais da FOIRN em parceria com a NADZOERI e ISA. O evento marca uma etapa importante na construção da alternativa econômica para desenvolvimento sustentável do território.

O principal objetivo da oficina é criar um modelo de gestão de negócio comunitário que una a dinâmica social Baniwa com ferramentas de administração e economia, garantindo a formação e treinamento em negócios. O Plano de Gestão de Negócio da Kalipana vai organizar a produção, valorizar o saber ancestral e estruturar a comercialização de produtos agrícolas do Sistema Agrícola Káali.

Durante o encontro, lideranças e jovens compartilharam experiências, necessidades e sonhos para o futuro, e fizeram exercício de construção de Plano de Gestão de Negócio de outras cadeias da sociobiodiversidade desenvolvidas no território, tais como Cerâmica Baniwa, Mel Baniwa e Artesanatos. O processo de construção coletiva garantiu que as prioridades das comunidades fossem consideradas como iniciativas importantes, colocando desenvolvimento socioeconômico para o bem viver indígena no centro das decisões.

A oficina também discutiu como os benefícios financeiros gerados pela produção local podem circular e fortalecer a própria comunidade, evitando a fuga de recursos e potencializando o desenvolvimento sustentável do território. Além disso, foram debatidas estratégias para agregar valor aos produtos e ampliar o acesso a mercados local, regional e nacional, sem perder a identidade cultural.

Segundo os organizadores, o Plano de Gestão de Negócio será uma ferramenta fundamental para consolidar a economia indígena, agregar valor aos produtos, desenvolvimento territorial e garantir o bem viver das famílias Baniwa e Koripako. O documento, que está em fase de elaboração, vai orientar ações futuras e fortalecer as parcerias dentro e fora do território.

A experiência da Casa-Território Kalipana demonstra a força do protagonismo indígena na busca por soluções inovadoras e sustentáveis. “Estamos construindo nosso próprio futuro, com respeito e valorização de nossa cultura”, afirmou o líder comunitário e articulador da Kalipana.

Esse movimento representa um passo importante para garantir que os recursos naturais e os saberes tradicionais sejam utilizados de maneira equilibrada, beneficiando as atuais e próximas gerações, e inspirando outras comunidades indígenas no território do rio Içana, rio Negro e na Amazônia.

Realização: Dep. de Negócios Socioambientais-FOIRN

Coordenação local: Kalipana

Parceria: NADZOERI-ISA

Apoio: For Eco/RN e FAM

Oficina de Capacitação em Instalação e Gestão do Sistema Fotovoltaico na Casa-Território Kalipana

Foi realizada na Casa-Território Kalipana, aldeia Santa Isabel do rio Ayari –AM, a Oficina de Capacitação em Instalação e Gestão do Sistema Fotovoltaico, ocorrida no período de 13 e 15 de outubro de 2025. A iniciativa, que integrou conhecimento tradicional e tecnologia moderna, capacitou jovens, moradores da aldeia e de comunidades vizinhas para gerar sua própria energia limpa. 

Os três jovens do próprio território – Juny Baniwa (técnico em administração), Rafael Baniwa (pós-médio em Gestão da Tecnologia Social) e Adriana Baniwa (formada em nível médio) – participaram de um curso de formação promovido pelo Centro de Aprendizagem Indígena para a Transição Energética Justa, uma parceria da FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro) com o Centro Paulista de Estudos da Transição Energética (CPTEn) e o Escritório Campus Sustentável da Unicamp, no âmbito do Projeto Sollar Rio Negro. 

Oficina de Capacitação em Instalação e Gestão do Sistema Fotovoltaico na Casa-Território Kalipana, aldeia Santa Isabel, promovendo energia sustentável e autonomia comunitária.

De volta à sua terra, eles se tornaram os instrutores principais, colocando em prática a implementação do sistema fotovoltaico. A oficina na Casa-Território Kalipana teve como foco principal treinar, na prática, outros jovens e lideranças para cuidarem da geração energia elétrica através do sistema fotovoltaico. 

A atividade foi intensa e coletiva. As lideranças da Kalipana e das aldeias vizinhas de Macedônia, São Joaquim e Camarão, organizaram atividades comunitárias para retirar e preparar as peças de madeira que formariam a base para os painéis solares. Os jovens e estudantes da Escola Kalipana também foram envolvidos para acompanhar as atividades de instalação elétrica, como parte do processo de aprendizagem técnica. 

Todo o processo contou com um suporte técnico e a assistência online do Prof. Msc. Dzoodzo Baniwa, físico e cientista ambiental, que guiou os passos mais técnicos à distância, garantindo a precisão e a segurança da instalação. Foi um belo exemplo de como o conhecimento acadêmico pode se conectar com a realidade do território. 

Após três dias de trabalho dedicado, o sistema foi concluído e testado e está em pleno funcionamento. A alegria e o sentimento de conquista tomaram conta da comunidade, pois conseguiu uma ferramenta para melhorar a segurança alimentar e suporte de fornecimento de energia para o trabalho de professores com os estudantes. 

A principal finalidade desta primeira estrutura é a conservação de alimentos frescos. Com a energia solar garantindo o funcionamento de freezer, a comunidade poderá preservar por mais tempo o pescado, as frutas e outros alimentos, reduzindo o desperdício e garantindo uma alimentação saudável e diversificada, especialmente nos períodos de difícil acesso aos recursos e ao ciclo natural de produção. 

As lideranças locais expressaram profunda gratidão à equipe local de jovens instrutores e ao professor Dzoodzo pelo apoio essencial. O agradecimento também se estendeu ao Fundo Socioambial Casa, cujo apoio financeiro foi fundamental para transformar o sonho da energia sustentável em realidade, também aos parceiros do projeto NADZOERI-FOIRN-SEMEDI e REDE MAKIRA ETA. 

A Oficina na Kalipana simboliza desenvolvimento das comunidades indígenas, a valorização dos saberes e a transição para uma energia justa e limpa. É um passo concreto rumo a um futuro em que a tecnologia serve ao bem-estar e bem viver das pessoas, respeitando e integrando-se ao seu território. A luz do sol, agora, também ilumina novas possibilidades para o povo Baniwa da aldeia Santa Isabel.

Realização: Coletivo Casa-Território Kalipana

Parceria: NADZOERI-FOIRN-SEMEDI- REDE MAKIRA ETA

Apoio: Fundo Socioambiental Casa

Projeto Kalipana Casa-Território Agrícola: a caminho de reconhecimento federal à agricultura indígena

Classificação no Prêmio Periferia Viva 2025 ressalta força dos saberes tradicionais e a transformação social no território Baniwa e Koripako

Ministério das Cidades anuncia resultado: Projeto Kalipana entre os classificados nacionais

Em um anúncio aguardado com grande expectativa, o Ministério das Cidades divulgou o resultado preliminar do Prêmio Periferia Viva 2025, reconhecendo iniciativas inovadoras que promovem transformação, inclusão e desenvolvimento social em territórios periféricos do Brasil. Entre os classificados está o Projeto Kalipana Casa-Território Agrícola, desenvolvido na aldeia Santa Isabel, território indígena do rio Ayari-Içana, município de São Gabriel da Cachoeira (AM). A notícia trouxe orgulho e esperança para o povo da aldeia, reafirmando o protagonismo dos saberes ancestrais na construção de caminhos para o futuro sustentável.

Do coração da Amazônia: origem e força comunitária

Localizada no extremo noroeste do Amazonas, na região do Alto Rio Negro, a aldeia Santa Isabel é a casa-território do povo indígena Baniwa. O Projeto Kalipana nasce desse território, onde o rio Ayari-Içana corta a floresta e sustenta a vida de quem ali habita. Fruto de uma articulação comunitária, o projeto resgata práticas agrícolas tradicionais e promove a autonomia das famílias, valorizando a cultura e a história do povo originário.

“O reconhecimento fortalecerá nossa luta e mostra para o Brasil que a nossa forma de viver e produzir pode inspirar outras aldeias-territórios”, afirma Dzoodzo Baniwa, liderança e um dos articuladores do projeto.

Educação Comunitária e o Sistema Agrícola Káali: saberes que alimentam e protegem

Um dos pilares do Projeto Kalipana é a Educação Comunitária voltada à agricultura sustentável indígena. As atividades acontecem em espaços de aprendizagem coletiva e comunitária, onde crianças, jovens e adultos trocam experiências sobre o manejo da terra, sementes nativas, ciclos de plantio, cosmovisão e de relação com harmoniosa com a natureza. A matriz pedagógica da Escolas é o Sistema Agrícola Káali, um sistema de saber sobre manejo milenar praticado pelos povos Baniwa e Koripako, que integra roças, quintais e agroflorestas, coleta, caça e pesca respeitando o equilíbrio da natureza e os ritmos culturais.

O Sistema Agrícola Káali está diretamente vinculado ao Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SAT-RN), reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no ano de 2010. Esse reconhecimento federal reforça que a agricultura indígena, além de garantir produção de alimentos saudáveis, é um patrimônio vivo que contribui para a identidade nacional.

Pequena feira comunitária Kalipana, em Santa Isabel do rio Ayari
Soberania alimentar, resiliência climática e fortalecimento dos saberes tradicionais

O trabalho do Projeto Kalipana tem gerado impactos de transformação positiva na aldeia Santa Isabel. A produção diversificada de mandioca, frutas, hortaliças e plantas medicinais manejas no sistema de roça e manejos agroecológicos assegura soberania alimentar às famílias, reduzindo a dependência de alimentos industrializados e fortalecendo a saúde comunitária. Além disso, a resiliência climática é construída no dia a dia: práticas,  manejos agroecológicos e atividades culturais que ocorrem de acordo com os ciclos naturais ajudam a enfrentar os impactos sistêmicos e fenômenos extremos de  secas e enchentes, garantindo a continuidade da vida mesmo diante das mudanças ambientais e climáticas.

“Aprendi com meus avós a cuidar da terra e das sementes. Hoje ensino meus filhos e netos, porque nosso futuro depende disso”, compartilha Valdir Karará, agricultor e educador comunitário.

Prêmio Periferia Viva: reconhecimento que transforma

A classificação do Projeto Kalipana no Prêmio Periferia Viva representa, para os povos do rio Ayari-Içana, muito mais do que uma conquista coletiva. É a afirmação de que os caminhos construídos a partir dos territórios indígenas são fundamentais para a inclusão social e o desenvolvimento sustentável do Brasil. O prêmio federal como esse valoriza trajetórias comunitárias, incentiva o protagonismo de mulheres, jovens e idosos, e inspira outras periferias a fortalecer suas raízes.

Segundo o site do Mapa das Periferias, o prêmio tem como objetivo “reconhecer, valorizar, potencializar e premiar iniciativas populares, de assessorias técnicas e de entes públicos governamentais que estejam em andamento, e que promovem enfrentamento da desigualdade socioespacial e a potencialização e transformação dos territórios periféricos”.

Depoimentos e sonhos coletivos: perspectivas para o futuro

A notícia da classificação foi recebida com alegria na aldeia Santa Isabel. Crianças, mulheres e anciãos celebraram o reconhecimento, reafirmando o compromisso de seguir cultivando a terra e preservando os saberes dos antepassados. Para as lideranças indígenas, o Prêmio Periferia Viva abre portas para novas parcerias, investimentos em educação comunitária e infraestrutura, e amplia a visibilidade das lutas dos povos originários.

“Queremos que nossos filhos tenham orgulho de ser indígenas Baniwa, conheçam nossa história e possam viver dignamente no território ao mesmo em tempo em que acessam conhecimento de outras culturas. O prêmio é só o começo de uma jornada que queremos compartilhar com outras comunidades”, resume Cléo Baniwa, uma das moradoras da aldeia.

Conclusão: raízes que sustentam o futuro

A classificação do Projeto Kalipana Casa-Território Agrícola no Prêmio Periferia Viva 2025 é um marco para os povos Baniwa e Koripako, e para todo os povos indígenas do Brasil. Representa a valorização dos saberes tradicionais, a garantia da soberania alimentar, a construção da resiliência climática e a renovação do compromisso com a inclusão social. Mais do que um reconhecimento, é um convite para celebrar a diversidade, fortalecer as raízes e construir um futuro em que todos tenham espaço para crescer, desenvolver e viver bem. Que o exemplo da aldeia Santa Isabel inspire outros territórios a acreditar na força das comunidades, na sabedoria dos ancestrais e na capacidade de transformar os territórios  a partir das aldeias. Viva o Projeto Kalipana, viva os povos indígenas do Rio Negro!

Projeto Integrador Pedagógico: Káaliaphi | Horta Resiliente

Agregar saberes e práticas milenares ao processo de educação integral indígena

Atividade comunitária na roça, em Santa Isabel do rio Ayari. Foto: Gerson Lopes/Kalipana/2024.

O Projeto Integrador Pedagógico Kalieni – Horta Resiliente, da Escola Municipal Indígena Santa Isabel (Kalipana), está programado para o segundo semestre de 2025. Busca integrar saberes ancestrais e contemporâneos no território Medzeniako frente aos desafios das mudanças climáticas. O objetivo é desenvolver a educação integral com tema da soberania alimentar das comunidades indígenas, especialmente por meio da construção coletiva de uma horta resiliente com estudantes do 6º e 7º anos do ensino fundamental, aliando o conhecimento ancestral do Sistema Agrícola Káali as práticas agroecológicas.

A mãe e a filha na roça comunitária Kalipana. Foto: Gerson Lopes/Kalipana/2024

O projeto reconhece que o território Medzeniako, com sua biodiversidade e tradição agrícola, sofre impactos diretos de eventos climáticos extremos, como a extrema cheia e das extremas secas, afetando a produção de alimentos. A iniciativa visa articular a aldeia-escola, estudantes, pessoas anciãs, agricultores(as) locais e técnicas convidadas no processo de educação comunitária, potencializando a cultura local e à sustentabilidade.

Nesse contexto, a Escola Kalipana identifica o papel fundamental na articulação e busca de respostas criativas e resilientes, que valorizem e revitalizem saberes ancestrais, ao mesmo tempo que incorporam técnicas adaptadas à realidade socioambiental. A horta resiliente surge, assim, como espaço pedagógico e produtivo, capaz de inspirar novas práticas no território e fortalecer a autonomia alimentar das famílias.

O Sistema Agrícola Káali é herança viva do povo Medzeniako, marcado pela prática da policultura no sistema de roça e manejado pela pluralidade e da diversidade cultural intrínseca destes povos. Essas práticas, transmitidas de geração em geração, asseguraram por milênios a manutenção e manejo da terra-floresta, da fertilidade do solo e as diversidades de plantas domesticadas e manejadas nas práticas agroecológicas.

O processo de integração desses saberes será coordenado por educadores(as), pessoas anciãs, agricultores(as) locais e técnicas convidadas, garantindo o respeito à cultura ancestral e a construção coletiva do conhecimento.

A metodologia proposta é baseada no compreender-agir-atuar, com cinco etapas principais: diagnóstico participativo comunitário, planejamento colaborativo escolar, implantação coletiva da horta, manejo e monitoramento dos cultivos, e avaliação/disseminação dos resultados. Um processo contínuo e cíclico pedagógico que respeita aos anos e ciclos escolares. 

1. Diagnóstico Participativo Comunitário 

Construção de roteiro de estudo-investigativo escolar. Estudantes, docentes e comunidade realizam levantamentos sobre narrativas, histórico agrícola do território, condições do solo e clima, variedades cultivadas e desafios atuais. Oficinas e rodas de conversa com pessoas mais velhas enriquecem o diagnóstico.

2. Planejamento Colaborativo Escolar

Definição coletiva dos objetivos, competência e habilidades educacionais da horta. Reunião da variedade e diversidade de espécies a serem cultivadas. Desenho  dos canteiros, definição dos turnos de cuidado e elaboração de um calendário astronômico-agroecológico adequado ao ciclo de vida das plantas. Aulas presenciais, estudo-dirigido, pesquisa com entrevista, bibliográfica e pela Internet. Sistematização Coletiva das narrativas e informações. Além de articular possíveis apoio técnico e financeiro para subsidiar a implementação do projeto. 

3. Implantação da Horta Kalieni

Mutirões comunitários, envolvendo estudantes, famílias e educadores, para preparo do solo, montagem dos canteiros, preparação de adubo orgânico, plantio das mudas e sementes, instalação do sistema de irrigação e montagem do espaço de compostagem. Aplicação de técnicas e tecnologias de saberes locais agregadas com conhecimentos técnicos e tecnologias de outros povos.

4. Manejo e monitoramento

Acompanhamento diário dos cultivos, manejo integrado, irrigação, capinas, adubações e registro das observações em diários de campo. Realização de feiras, degustações e partilhas das colheitas com a comunidade escolar.

5. Avaliação e disseminação

Avaliação coletiva dos resultados, registro das experiências em textos, fotos e vídeos. Sistematização coletiva e relatório final da aprendizagem. Publicação em redes sociais e promoção de encontros para compartilhar aprendizados com outras escolas e comunidades do território.

Algumas plantas da roça comunitária Kalipana. Foto: Gerson Lopes/Kalipana 2024
Importância e Impacto Esperado

A Kalieni Horta Resiliente pretende ser referência de como a escola pode responder aos desafios contemporâneos, formando novas gerações comprometidas com a sustentabilidade e com a valorização das raízes culturais do território, diante do contexto da mudança e das incertezas climáticas. Para superá-los, aposta-se na mobilização comunitária, no intercâmbio de experiências com outras iniciativas e na busca de parcerias com instituições de pesquisa, ONGs e órgãos governamentais. A perspectiva é que a horta escolar se torne um laboratório vivo, capaz de gerar inovações, fortalecer a identidade local e inspirar ações semelhantes em outros territórios.