
A meliponicultura, arte de criar abelhas indígenas sem ferrão, representa uma importante prática cultural e econômica para o povo Baniwa-Koripako na região do rio Ayari-Içana. Apresentamos a evolução histórica desta atividade, desde suas raízes tradicionais até sua sistematização com técnica moderna, destacando os desafios enfrentados e o desenvolvimento de conhecimentos locais que fortalecem esta prática ancestral.
Manejo Tradicional
Para o povo Baniwa-Koripako, o manejo de abelhas nativas sempre foi parte integrante de sua cultura, com métodos próprios transmitidos por gerações. Esse conhecimento tradicional engloba a identificação de espécies, localização de colônias selvagens, técnicas de extração do mel e aproveitamento de outros produtos das abelhas.
A transição para uma meliponicultura, como técnica, começou a ganhar forma no início dos anos 2000, na Escola Pamáali, quando técnicas de manejo em caixas racionais foram introduzidas na região. Este período marcou uma importante fase de adaptação, onde o conhecimento tradicional começou a se integrar com técnicas modernas de manejo. No entanto, desafios ecológicos significativos, como a invasão da abelha limão, prejudicaram a continuidade dos primeiros projetos implementados.
A Meliponicultura como técnica integrada à cultura Baniwa
2002 – A Meliponicultura como a arte da criação de abelhas indígenas sem ferrão, em caixas-padrão e sob manejo técnico vem incorporando o manejo tradicional a partir do ano de 2002, na Escola Pamáali, no médio Içana II.
2003-2006 – Projetos e oficinas de formação foram realizados para aprimorar as técnicas, promovendo intercâmbio de experiências. No entanto, essa iniciativa enfrentou dificuldades devido ao aparecimento da abelha limão, considerada uma praga ecológica.
2005 – Primeiras Noções no Rio Ayari. A aldeia Canadá recebeu os primeiros conhecimentos sobre meliponicultura durante cursos de extensão ministrados pela Escola Agrotécnica Federal de São Gabriel da Cachoeira (atual IFAM-CSGC), mas não teve continuidade na implementação prática.
Após um período de estagnação, a meliponicultura no rio Ayari ganhou novo impulso a partir de 2017, quando a comunidade de Santa Isabel indicou Germano Brazão para representar a ACIRA (Associação das Comunidades do rio Ayari) em uma oficina realizada pela ABRIC (Associação das Comunidades do rio Içana e Cuyari). Este evento realizado em Tunuí Cachoeira e ministrado por Genilton Apolinário, contou com o apoio da NADZOERI, FOIRN e ISA através do projeto Cadeia de Valor do Território da Sociodiversidade.
A Meliponicultura na Kalipana
2017 – Formação Inicial. Germano Brazão participou da primeira oficina de meliponicultura em Tunuí Cachoeira, ministrada por Genilton Apolinário.
2019 – Aprimoramento Técnico. Participação em duas oficinas avançadas em Irari Ponta, com apoio de múltiplas organizações locais como a NADZOERI-FOIRN-FUNAI e orientação técnica especializada de técnicos do ISA e IDSM.
2022 – Tornando-se Referência. Germano Brazão, através de estabelecimento do meliponário próprio e aplicação prática dos conhecimentos adquiridos, veio o reconhecimento como multiplicador e referência em meliponicultura na região do rio Ayari. Em 2022, foi convidado para compartilhar suas experiências na I Oficina de Meliponicultura da região. Este marco representa o sucesso individual de um meliponicultor e consolidação de um modelo de transferência de conhecimento que respeita e valoriza o protagonismo indígena, criando as bases para a expansão sustentável da atividade no território.
2024 – Intercâmbio de experiência. Participação no evento de intercâmbio de experiência entre os meliponicultores do estado do Amazonas. O evento foi pela Rede de Meliponicultures Amazonenses (REDEMEL), em Manaus. Neste evento foi avaliado a qualidade do mel produzido em cada território representando. E o mel produzido no território do rio Içana ficou em 2º lugar.

A trajetória de Germano Brazão ilustra um modelo bem-sucedido de formação de multiplicadores locais em meliponicultura. Diferente das primeiras tentativas na região, sua formação seguiu um processo gradual e consistente, combinando conhecimento teórico com prática contínua. A construção de seu próprio meliponário representou um laboratório vivo, onde pôde adaptar as técnicas aprendidas às condições específicas do rio Ayari, desenvolvendo soluções adequadas ao contexto ambiental e cultural local.
O sucesso dessa iniciativa deve-se em grande parte à abordagem integrada adotada pelas organizações de apoio, que reconheceram a importância de formar multiplicadores locais com forte enraizamento nas comunidades. A continuidade do acompanhamento técnico, aliada ao protagonismo indígena na condução do processo, permitiu superar os desafios que haviam comprometido as primeiras experiências de meliponicultura na região.
A experiência do rio Ayari demonstra como a meliponicultura pode se desenvolver de forma orgânica quando há um processo adequado de formação e acompanhamento, respeitando os tempos e as dinâmicas culturais das comunidades indígenas. O caso de Germano Brazão serve como inspiração para outras iniciativas similares, evidenciando a importância da formação continuada e do apoio institucional para o desenvolvimento de atividades produtivas sustentáveis em territórios indígenas.
