Classificação no Prêmio Periferia Viva 2025 ressalta força dos saberes tradicionais e a transformação social no território Baniwa e Koripako
Ministério das Cidades anuncia resultado: Projeto Kalipana entre os classificados nacionais
Em um anúncio aguardado com grande expectativa, o Ministério das Cidades divulgou o resultado preliminar do Prêmio Periferia Viva 2025, reconhecendo iniciativas inovadoras que promovem transformação, inclusão e desenvolvimento social em territórios periféricos do Brasil. Entre os classificados está o Projeto Kalipana Casa-Território Agrícola, desenvolvido na aldeia Santa Isabel, território indígena do rio Ayari-Içana, município de São Gabriel da Cachoeira (AM). A notícia trouxe orgulho e esperança para o povo da aldeia, reafirmando o protagonismo dos saberes ancestrais na construção de caminhos para o futuro sustentável.
Do coração da Amazônia: origem e força comunitária
Localizada no extremo noroeste do Amazonas, na região do Alto Rio Negro, a aldeia Santa Isabel é a casa-território do povo indígena Baniwa. O Projeto Kalipana nasce desse território, onde o rio Ayari-Içana corta a floresta e sustenta a vida de quem ali habita. Fruto de uma articulação comunitária, o projeto resgata práticas agrícolas tradicionais e promove a autonomia das famílias, valorizando a cultura e a história do povo originário.
“O reconhecimento fortalecerá nossa luta e mostra para o Brasil que a nossa forma de viver e produzir pode inspirar outras aldeias-territórios”, afirma Dzoodzo Baniwa, liderança e um dos articuladores do projeto.
Educação Comunitária e o Sistema Agrícola Káali: saberes que alimentam e protegem
Um dos pilares do Projeto Kalipana é a Educação Comunitária voltada à agricultura sustentável indígena. As atividades acontecem em espaços de aprendizagem coletiva e comunitária, onde crianças, jovens e adultos trocam experiências sobre o manejo da terra, sementes nativas, ciclos de plantio, cosmovisão e de relação com harmoniosa com a natureza. A matriz pedagógica da Escolas é o Sistema Agrícola Káali, um sistema de saber sobre manejo milenar praticado pelos povos Baniwa e Koripako, que integra roças, quintais e agroflorestas, coleta, caça e pesca respeitando o equilíbrio da natureza e os ritmos culturais.
O Sistema Agrícola Káali está diretamente vinculado ao Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SAT-RN), reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no ano de 2010. Esse reconhecimento federal reforça que a agricultura indígena, além de garantir produção de alimentos saudáveis, é um patrimônio vivo que contribui para a identidade nacional.

Soberania alimentar, resiliência climática e fortalecimento dos saberes tradicionais
O trabalho do Projeto Kalipana tem gerado impactos de transformação positiva na aldeia Santa Isabel. A produção diversificada de mandioca, frutas, hortaliças e plantas medicinais manejas no sistema de roça e manejos agroecológicos assegura soberania alimentar às famílias, reduzindo a dependência de alimentos industrializados e fortalecendo a saúde comunitária. Além disso, a resiliência climática é construída no dia a dia: práticas, manejos agroecológicos e atividades culturais que ocorrem de acordo com os ciclos naturais ajudam a enfrentar os impactos sistêmicos e fenômenos extremos de secas e enchentes, garantindo a continuidade da vida mesmo diante das mudanças ambientais e climáticas.
“Aprendi com meus avós a cuidar da terra e das sementes. Hoje ensino meus filhos e netos, porque nosso futuro depende disso”, compartilha Valdir Karará, agricultor e educador comunitário.
Prêmio Periferia Viva: reconhecimento que transforma

A classificação do Projeto Kalipana no Prêmio Periferia Viva representa, para os povos do rio Ayari-Içana, muito mais do que uma conquista coletiva. É a afirmação de que os caminhos construídos a partir dos territórios indígenas são fundamentais para a inclusão social e o desenvolvimento sustentável do Brasil. O prêmio federal como esse valoriza trajetórias comunitárias, incentiva o protagonismo de mulheres, jovens e idosos, e inspira outras periferias a fortalecer suas raízes.
Segundo o site do Mapa das Periferias, o prêmio tem como objetivo “reconhecer, valorizar, potencializar e premiar iniciativas populares, de assessorias técnicas e de entes públicos governamentais que estejam em andamento, e que promovem enfrentamento da desigualdade socioespacial e a potencialização e transformação dos territórios periféricos”.
Depoimentos e sonhos coletivos: perspectivas para o futuro
A notícia da classificação foi recebida com alegria na aldeia Santa Isabel. Crianças, mulheres e anciãos celebraram o reconhecimento, reafirmando o compromisso de seguir cultivando a terra e preservando os saberes dos antepassados. Para as lideranças indígenas, o Prêmio Periferia Viva abre portas para novas parcerias, investimentos em educação comunitária e infraestrutura, e amplia a visibilidade das lutas dos povos originários.
“Queremos que nossos filhos tenham orgulho de ser indígenas Baniwa, conheçam nossa história e possam viver dignamente no território ao mesmo em tempo em que acessam conhecimento de outras culturas. O prêmio é só o começo de uma jornada que queremos compartilhar com outras comunidades”, resume Cléo Baniwa, uma das moradoras da aldeia.
Conclusão: raízes que sustentam o futuro
A classificação do Projeto Kalipana Casa-Território Agrícola no Prêmio Periferia Viva 2025 é um marco para os povos Baniwa e Koripako, e para todo os povos indígenas do Brasil. Representa a valorização dos saberes tradicionais, a garantia da soberania alimentar, a construção da resiliência climática e a renovação do compromisso com a inclusão social. Mais do que um reconhecimento, é um convite para celebrar a diversidade, fortalecer as raízes e construir um futuro em que todos tenham espaço para crescer, desenvolver e viver bem. Que o exemplo da aldeia Santa Isabel inspire outros territórios a acreditar na força das comunidades, na sabedoria dos ancestrais e na capacidade de transformar os territórios a partir das aldeias. Viva o Projeto Kalipana, viva os povos indígenas do Rio Negro!
